«Era mais um ranking fresquinho ‘faxavor’…»

Na sua cavalgada pela eficiência e competitividade, o neoliberalismo especializou-se na criação de rankings. É fácil de perceber a racionalidade, afinal, os modelos económicos neoclássicos só funcionam em cenário de informação completa e perfeita. No fundo, os rankings de tudo e mais alguma coisa, tal como as agências de rating, só servem para que os agentes possuam melhor informação e dessa forma possam agir eficientemente.

Na educação fazem-se todo o tipo de rankings. Começa no embuste do ranking das escolas secundárias, que o Nuno Serra expõe aqui. Para faculdades de economia existem rankings de todo o tipo, de MBA’s, de melhores escolas de negócios, de melhores cursos, de melhores professores, enfim, um pouco de tudo. Todos os rankings são anunciados de forma pomposa e sensacionalista e a verdade e a análise cuidada dos números é, quase sempre, deixada ao abandono.

Ora, o site Forum Estudante tem também um ranking da empregabilidade dos cursos superiores. Até aqui tudo bem. A referência a tal ranking está num artigo do site Dinheiro Vivo, do grupo Controlinveste, e não foge à regra do sensacionalismo acrítico. O título é ” Se for capaz convença o seu filho a não tirar um destes 10 cursos” e limita-se a uma enumeração de 10 cursos que, com base no ranking do Forum Estudante, têm muito baixas taxas de empregabilidade com um pequeno texto explicativo cravado, também ele, de sensacionalismo. Pela ordem apresentada, os cursos são Filosofia, Radiologia, Relações Internacionais, Ciências da Comunicação, História, Psicologia, Bioquímica, Línguas e Literaturas, Estudos Europeus e, por fim, Ciências Bioanalíticas…Esperem…Ciências Bioanalíticas? Mas que raio de curso é esse?

Pois é, acontece que por motivos pessoais, tenho um conhecimento aprofundado deste malfadado curso, sendo que já convenci, com êxito, pessoas que me são próximas a segui-lo, contrariando claramente o conselho do jornalista do Dinheiro Vivo. A exposição no Dinheiro Vivo explica suficientemente bem do que se trata: Tem competências multidisciplinares com aplicação em áreas analíticas e pré-clínicas de controlo da qualidade alimentar, ambiental, agro-ambiental, de produtos farmacêuticos e cosméticos, de águas, efluentes e solos, bem como de análises químico-biológicas de aplicação ao diagnóstico clínico e toxicológico. Só existe da Universidade de Coimbra. Segundo o Fórum Estudante é o curso com menor empregabilidade dos mais de 750 cursos da análise.

Mas tudo isto tem um imenso problema. É que não existe um só desempregado com licenciatura em Ciências Bioanalíticas, da mesma forma que não existe um único empregado, ou pelo menos, um único empregado que não esteja a estudar. Quando analisamos ao pormenor os dados do Forum Estudante, damo-nos conta que os dados se referem ao ano de 2010, ano em que se licenciaram as primeiras 9 pessoas, sendo que, todas elas, seguiram para mestrados, nomeadamente em Análises Clínicas ou se transferiram para o mestrado integrado em Ciências Farmacêuticas na mesma faculdade. Certo é que há aqui um enorme equívoco que, a bem dos alunos deste curso, devia ser explicado, a bem da verdade, devia ser corrigido, e a bem de todos, não devia voltar a acontecer.

A primeira moral da história a reter é que os rankings escondem sempre mais do que aquilo que mostram e a segunda moral da história é que devemos olhar sempre de forma crítica para aquilo que os jornais nos apresentam como verdade absoluta.

Sobre Tiago Santos

Gajo que curte fazer blogues enquanto estuda economia...
Esta entrada foi publicada em Educação, emprego. ligação permanente.

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